Inteligência artificial

As Canárias perante a Revolução Digital: NIS 2, Competitividade e o Desafio do Modelo Económico Insular

1. Um Ponto de Viragem: a NIS 2 e a Cibersegurança na UE
A cibersegurança na Europa atravessa um momento crucial. A Agência da União Europeia para a Cibersegurança (ENISA) publicou o seu relatório “NIS Investments 2024” , no qual analisa o impacto da transição para a Diretiva NIS 2 , uma norma que reforça as obrigações das empresas em matéria de segurança digital. Não se trata de um simples ajuste regulamentar, mas de uma mudança profunda na forma como as empresas devem encarar os riscos informáticos.
O estudo, baseado num amplo inquérito a mais de 1350 organizações dos 27 Estados-Membros, deixa claro que o investimento em cibersegurança aumentou, atingindo 9% do orçamento de TI em muitas empresas, mas põe também em cima da mesa uma série de desafios que vão muito além do dinheiro. A escassez de talento especializado está a tornar-se um problema estrutural: apesar da procura crescente, o número de colaboradores dedicados à cibersegurança caiu pelo quarto ano consecutivo, o que evidencia que a capacidade das empresas para cumprir a NIS 2 não depende apenas dos seus recursos financeiros, mas também da sua capacidade de atrair e reter talento qualificado.
Ainda assim, a consciência sobre esta norma é elevada. Quase todas as organizações inquiridas sabem que têm de cumprir a diretiva, mas a pergunta continua a ser se estão realmente preparadas para o fazer. E é aqui que as Canárias entram em cena, porque os desafios que o resto da Europa já enfrenta são ampliados num contexto insular como o das ilhas.
2. As Canárias perante a NIS 2: um Desafio que Põe em Xeque a sua Competitividade
Nem todas as regiões enfrentam a digitalização com as mesmas ferramentas e, no caso das Canárias, a adaptação à NIS 2 vem acompanhada de dificuldades adicionais que fazem com que a cibersegurança não seja apenas uma questão tecnológica, mas também um reflexo dos problemas estruturais que a economia do arquipélago arrasta.
O talento digital nas ilhas continua a ser escasso, e não só porque a formação em cibersegurança ainda não está suficientemente difundida, mas também porque algumas das pessoas que adquirem estas competências acabam por procurar oportunidades fora.
A fuga de talento, um problema recorrente nas Canárias, torna-se um obstáculo real quando falamos de segurança digital, porque, sem profissionais qualificados, as empresas locais têm poucas possibilidades de cumprir os requisitos da nova norma.
Mas, para além da falta de especialistas, o verdadeiro desafio é a forma como as empresas canarinas encaram a cibersegurança. Num tecido empresarial dominado por pequenas e médias empresas, muitas das quais operam com margens apertadas, a segurança digital continua a ser vista como um custo adicional e não como um investimento estratégico. O problema é que esta mentalidade choca de frente com a NIS 2, que transforma a cibersegurança numa obrigação legal incontornável.
A isto soma-se outro fator que complica a transição: a infraestrutura digital nas Canárias continua a depender em grande medida de operadores externos e de uma conectividade que nem sempre está à altura das exigências atuais. Numa economia global em que os ciberataques podem pôr em xeque qualquer empresa em questão de minutos, não dispor de uma infraestrutura robusta pode tornar o cumprimento da NIS 2 ainda mais complicado para muitas organizações locais.
3. O Problema Não é Só a Cibersegurança: é o Modelo Económico
A cibersegurança é apenas uma das muitas peças do puzzle. A NIS 2 põe em cima da mesa um problema ainda maior: a falta de competitividade das Canárias no ambiente digital. Durante décadas, o arquipélago dependeu de um modelo económico assente no turismo e em setores tradicionais que resistiram à transformação digital. E, embora esta estratégia tenha funcionado até certo ponto, o mundo mudou, e as Canárias não se podem dar ao luxo de continuar a operar segundo um esquema que já mostra claros sinais de esgotamento.
O problema não é apenas a dependência do turismo, mas a incapacidade das empresas para inovar e se adaptarem à nova realidade digital. Enquanto outras regiões impulsionaram setores como a inteligência artificial, a biotecnologia ou a automação, nas Canárias o debate continua centrado nos problemas de sempre: a falta de diversificação económica, a burocracia que trava o crescimento empresarial e a dificuldade em atrair investimentos de elevado valor acrescentado.
E, claro, há a questão do mercado de trabalho. O fosso entre o que pedem os empresários e o que reivindicam os trabalhadores continua a aumentar. Por um lado, as empresas alegam que os custos laborais são demasiado elevados para serem competitivas; por outro, os trabalhadores insistem que os salários não chegam para cobrir o custo de vida. No meio deste choque de interesses, a produtividade continua baixa e a perceção de que “ninguém quer trabalhar” torna-se uma constante, embora, em muitos casos, o problema não seja a falta de vontade, mas a ausência de incentivos reais para melhorar o desempenho e a eficiência.
4. Reinventar as Canárias: a Necessidade de uma Mudança Estrutural
Se as Canárias querem não só cumprir a NIS 2, mas tornar-se uma referência na economia digital, precisam de uma estratégia clara. A chave não está em continuar a fazer o mesmo à espera de resultados diferentes, mas em transformar a estrutura produtiva e laboral do arquipélago.
Para isso, é imprescindível que as empresas e as instituições comecem a ver o Régimen Económico y Fiscal de Canarias (REF Canarias, o regime económico e fiscal especial do arquipélago) como algo mais do que um simples mecanismo de redução fiscal para setores tradicionais. Se for aplicado estrategicamente à atração de empresas tecnológicas, o arquipélago poderá tornar-se um polo de inovação e cibersegurança no Atlântico, tirando partido da sua localização geográfica e da sua ligação à Europa e à América Latina.
Mas não basta atrair empresas. É também necessário formar talento local, porque, sem especialistas em cibersegurança e tecnologia, qualquer tentativa de digitalização será superficial. A criação de centros de formação avançada em segurança digital e a implementação de modelos de trabalho híbridos podem ajudar a que mais profissionais qualificados decidam ficar nas ilhas em vez de procurarem oportunidades fora.
O mercado de trabalho, por sua vez, precisa de uma modernização urgente. Não se trata de reduzir salários nem de cobrar mais impostos às empresas, mas de adotar modelos que premeiem a produtividade e a eficiência, em vez de continuar ancorado num sistema que mede o trabalho em horas e não em resultados.
Por fim, o setor público deve desempenhar um papel fundamental. Não basta impor regulamentações como a NIS 2; é necessário facilitar a transição digital com incentivos, aconselhamento e um ecossistema empresarial que favoreça o investimento em inovação. Se as Canárias não levarem a sério esta transformação, continuarão a perder competitividade num mundo em que a economia digital já não é o futuro, mas o presente.
5. Conclusão: Adaptar-se ou Ficar para Trás
O verdadeiro desafio da NIS 2 não é apenas cumprir a norma, mas compreender que a digitalização e a cibersegurança são a base de qualquer economia moderna. As Canárias têm dois caminhos: podem continuar a operar segundo um esquema que já está esgotado ou podem aproveitar esta oportunidade para redesenhar o seu futuro.
O tempo dos diagnósticos já passou. Agora é altura de decidir se o arquipélago quer tornar-se uma referência de inovação ou continuar preso na inércia dos seus próprios problemas. Porque o futuro não espera. Ou nos adaptamos, ou ficamos para trás.

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