{"id":40130,"date":"2025-09-28T11:15:31","date_gmt":"2025-09-28T11:15:31","guid":{"rendered":"https:\/\/metachannelcorp.com\/en\/perspectives\/praxis-house-nova-categoria-organizacional\/"},"modified":"2025-09-28T11:15:31","modified_gmt":"2025-09-28T11:15:31","slug":"praxis-house-nova-categoria-organizacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/metachannelcorp.com\/pt\/perspetivas\/praxis-house-nova-categoria-organizacional\/","title":{"rendered":"Praxis House: nova categoria organizacional"},"content":{"rendered":"<p>Por <b><a href=\"https:\/\/pcdd-global.org\/editores\/antonio-tejeda-encinas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Antonio Tejeda Encinas, SJD \/ Dr. iuris<\/a><br \/>\n<\/b>Presidente do Comit\u00e9 Euroamericano de Derecho Digital.<br \/>\nCEO da Meta Channel Corporation. Autor do conceito Praxis House.<\/p>\n<p><strong>Nota do autor: quando \u00abconsultora\u00bb j\u00e1 n\u00e3o basta<\/strong><\/p>\n<p><span >Sempre que explico a que nos dedicamos na Meta Channel Corporation, deparo-me com a mesma cena: executivos que esperam ouvir a palavra \u00abconsultora\u00bb e ficam perplexos quando digo que somos uma <em>Praxis House \u2013 um termo que cunh\u00e1mos para definir uma entidade dedicada \u00e0 a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica refletida (praxis), em que a <strong>execu\u00e7\u00e3o \u00e9 a ess\u00eancia do valor<\/strong><\/em><strong>.<\/strong> O termo desconcerta-os. Alguns acenam com cortesia, outros perguntam com prud\u00eancia, mas a maioria permanece alguns segundos em sil\u00eancio, a tentar decifrar o que significa exatamente. E n\u00e3o \u00e9 para menos: n\u00e3o existe nenhum manual pr\u00e9vio que defina o que \u00e9 uma Praxis House.<\/span><\/p>\n<p><span >Esse desconcerto confirma uma intui\u00e7\u00e3o: o r\u00f3tulo \u00abconsultora\u00bb tornou-se curto para descrever o que fazemos. A consultoria cl\u00e1ssica remete para diagn\u00f3stico, relat\u00f3rios e recomenda\u00e7\u00f5es. N\u00f3s, pelo contr\u00e1rio, movemo-nos noutro plano: o da execu\u00e7\u00e3o real da estrat\u00e9gia, ali onde os planos se convertem em impacto. Foi dessa necessidade \u2014 nomear com precis\u00e3o o que fazemos e distingui-lo da concorr\u00eancia \u2014 que surgiu o conceito Praxis House. Proponho-o n\u00e3o s\u00f3 como categoria para a minha pr\u00f3pria pr\u00e1tica empresarial, mas tamb\u00e9m como um novo termo acad\u00e9mico e organizacional, destinado a captar uma transforma\u00e7\u00e3o mais ampla na forma de entender a gest\u00e3o estrat\u00e9gica.<\/span><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><span >Thomas A. Edison advertiu que \u00ab<em>a vis\u00e3o sem execu\u00e7\u00e3o \u00e9 alucina\u00e7\u00e3o\u00bb<\/em>. Esta senten\u00e7a encerra um desafio central no mundo dos neg\u00f3cios e da gest\u00e3o organizacional: de pouco serve conceber grandes estrat\u00e9gias ou vis\u00f5es inspiradoras se n\u00e3o formos capazes de as p\u00f4r em pr\u00e1tica. No \u00e2mbito empresarial contempor\u00e2neo, o fosso entre a formula\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e a sua implementa\u00e7\u00e3o efetiva continua a ser not\u00f3rio. Um dado frequentemente citado prov\u00e9m da revista Fortune, que j\u00e1 em 1999 alertava para o facto de menos de 10% das estrat\u00e9gias corretamente formuladas chegarem a ser executadas com \u00eaxito. Por outras palavras, a grande maioria dos planos estrat\u00e9gicos morre no papel, v\u00edtima de uma execu\u00e7\u00e3o deficiente ou inexistente. Como assinalam os reconhecidos especialistas em gest\u00e3o Ram Charan e Geoffrey Colvin nos seus trabalhos, o problema n\u00e3o costuma residir na qualidade da estrat\u00e9gia formulada, mas no que acontece depois: segundo d\u00e9cadas de estudo em empresas de todo o mundo, \u00abo erro n\u00e3o se encontra na fase inicial da estrat\u00e9gia, mas depois\u00bb, ou seja, numa execu\u00e7\u00e3o pobre.<\/span><\/p>\n<p><span >Perante esta realidade, torna-se evidente a necessidade de repensar a forma como as organiza\u00e7\u00f5es abordam o salto da teoria para a pr\u00e1tica. \u00c9 aqui que propomos o conceito de \u00abPraxis House\u00bb: uma nova categoria organizacional, distinta da consultoria cl\u00e1ssica, concebida precisamente para orquestrar a execu\u00e7\u00e3o real da estrat\u00e9gia. Neste ensaio, exploraremos o que significa uma Praxis House, por que raz\u00e3o surge como resposta \u00e0s limita\u00e7\u00f5es da consultoria tradicional e como integra vis\u00e3o, implementa\u00e7\u00e3o operacional e responsabilidade pelos resultados de forma hol\u00edstica. Para fundamentar esta ideia, recorreremos \u00e0s reflex\u00f5es de pensadores do management, da governa\u00e7\u00e3o e da filosofia da a\u00e7\u00e3o organizacional, com um tom anal\u00edtico, mas acess\u00edvel, evitando jarg\u00e3o desnecess\u00e1rio. O objetivo \u00e9 tra\u00e7ar uma reflex\u00e3o acad\u00e9mico-filos\u00f3fica de novo cunho que esclare\u00e7a por que raz\u00e3o o termo \u00abPraxis House\u00bb pode descrever melhor as entidades orientadas para a a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica efetiva.<\/span><\/p>\n<p><strong>Da vis\u00e3o \u00e0 execu\u00e7\u00e3o: o fosso entre estrat\u00e9gia e praxis<\/strong><\/p>\n<p><span >As organiza\u00e7\u00f5es costumam investir recursos consider\u00e1veis no planeamento estrat\u00e9gico \u2014 definir uma vis\u00e3o, estabelecer objetivos de longo prazo, delinear planos de a\u00e7\u00e3o \u2014, mas o verdadeiro impacto de qualquer estrat\u00e9gia depende da sua execu\u00e7\u00e3o. Howard Schultz, fundador da Starbucks, afirmava que mesmo a melhor estrat\u00e9gia do mundo \u00e9 in\u00fatil se n\u00e3o for executada. Mais contundente ainda, o antigo CEO Mike Roach popularizou a frase \u00abestrat\u00e9gia sem execu\u00e7\u00e3o \u00e9 alucina\u00e7\u00e3o\u00bb, sublinhando que uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica sem concretiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica \u00e9 meramente uma miragem. O fosso entre a vis\u00e3o e a realidade tem sido amplamente documentado: estudos cl\u00e1ssicos de gest\u00e3o estrat\u00e9gica indicam que uma percentagem esmagadora das estrat\u00e9gias empresariais n\u00e3o alcan\u00e7a os resultados desejados devido a falhas na sua implementa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span >Por que raz\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil converter as ideias em factos? Diversos analistas apontam fatores recorrentes. Por um lado, as organiza\u00e7\u00f5es enfrentam in\u00e9rcias internas, resist\u00eancias \u00e0 mudan\u00e7a e estruturas r\u00edgidas que dificultam a tradu\u00e7\u00e3o de novos planos em a\u00e7\u00f5es concretas. Por outro lado, ocorre muitas vezes uma desconex\u00e3o entre quem formula a estrat\u00e9gia e quem a deve executar no dia a dia. A comunica\u00e7\u00e3o ineficaz, a falta de alinhamento cultural e a aus\u00eancia de incentivos claros podem minar a execu\u00e7\u00e3o desde o in\u00edcio. Al\u00e9m disso, um obst\u00e1culo apontado com frequ\u00eancia \u00e9 a dilui\u00e7\u00e3o da responsabilidade: quando \u00abtoda a gente\u00bb \u00e9 respons\u00e1vel, na pr\u00e1tica ningu\u00e9m o \u00e9. De facto, segundo inqu\u00e9ritos realizados a centenas de executivos, um dos impedimentos mais citados para uma execu\u00e7\u00e3o efetiva foi a pouca clareza quanto \u00e0 responsabilidade e \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de contas nas decis\u00f5es de execu\u00e7\u00e3o. Sem uma atribui\u00e7\u00e3o n\u00edtida de quem deve fazer o qu\u00ea, e sem mecanismos para exigir contas, as iniciativas estrat\u00e9gicas tendem a estagnar.<\/span><\/p>\n<p><span >O pensador organizacional Chris Argyris trouxe uma perspetiva \u00fatil ao assinalar que a efic\u00e1cia na a\u00e7\u00e3o depende da congru\u00eancia entre o que dizemos e o que fazemos. Nos termos de Argyris, as organiza\u00e7\u00f5es possuem muitas vezes uma \u00abteoria proclamada\u00bb (o que proclamam nos seus planos e discursos) distinta da sua \u00abteoria em uso\u00bb (o que realmente fazem). Quando h\u00e1 um fosso entre ambas, a estrat\u00e9gia fracassa. As a\u00e7\u00f5es efetivas, argumentava Argyris, nascem do alinhamento entre a teoria e a pr\u00e1tica, de modo que os atos concretos reflitam fielmente a inten\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. Esta reflex\u00e3o liga-se diretamente ao conceito de praxis, termo de raiz grega que alude \u00e0 a\u00e7\u00e3o refletida, \u00e0 pr\u00e1tica informada pela teoria. Ao contr\u00e1rio da teoria (theor\u00eda, contempla\u00e7\u00e3o) ou da mera produ\u00e7\u00e3o instrumental (po\u00edesis), a praxis implica uma a\u00e7\u00e3o consciente orientada por valores e conhecimentos, cuja finalidade \u00e9 a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o. Em palavras inspiradas em Arist\u00f3teles, \u00aba praxis descreve um tipo de atividade que se realiza em si mesma e para si mesma: a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o \u00e9 o objetivo\u00bb. Ou seja, \u00e9 no ato de executar que se encarna o prop\u00f3sito.<\/span><\/p>\n<p><span >Nesta \u00f3tica, a execu\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia n\u00e3o \u00e9 uma componente t\u00e9cnica e secund\u00e1ria do management, mas a sua pr\u00f3pria ess\u00eancia: \u00e9 a praxis organizacional por excel\u00eancia. Sem execu\u00e7\u00e3o, a estrat\u00e9gia carece de realidade; sem praxis, a vis\u00e3o fica-se pela utopia. Da\u00ed a urg\u00eancia de encontrar mecanismos organizacionais que fechem o fosso entre a vis\u00e3o estrat\u00e9gica e a a\u00e7\u00e3o operacional, entre a teoria formulada e a pr\u00e1tica realizada. A ideia de uma Praxis House surge precisamente como resposta a essa necessidade.<\/span><\/p>\n<p><strong>Limita\u00e7\u00f5es da consultoria cl\u00e1ssica<\/strong><\/p>\n<p><span >Tradicionalmente, quando as empresas enfrentavam o desafio de executar as suas estrat\u00e9gias, recorriam a empresas de consultoria para obter aconselhamento especializado. A consultoria cl\u00e1ssica \u2014 representada pelas grandes consultoras de gest\u00e3o estrat\u00e9gica \u2014 centrou-se historicamente na an\u00e1lise, no aconselhamento e na conce\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es. Um consultor t\u00edpico presta \u00abassessoria independente e apoio em mat\u00e9rias de gest\u00e3o\u00bb, trazendo uma vis\u00e3o externa, neutra e especializada sobre os problemas do cliente. O seu papel assemelha-se ao de um arquiteto organizacional: diagnostica a situa\u00e7\u00e3o, prop\u00f5e um plano (o \u00abprojeto\u00bb da solu\u00e7\u00e3o) e recomenda determinadas \u00abobras\u00bb a empreender. No entanto, por mais l\u00facida que seja a recomenda\u00e7\u00e3o, o consultor tradicional raramente suja as m\u00e3os na execu\u00e7\u00e3o dessas obras.<\/span><\/p>\n<p><span >Existem raz\u00f5es estruturais para esta dist\u00e2ncia. Por defini\u00e7\u00e3o, a consultoria \u00e9 um servi\u00e7o de aconselhamento. O Instituto Brasileiro de Consultoria (IBCO), por exemplo, descreve-a como um processo interativo em que um agente de mudan\u00e7a externo \u00abassume a responsabilidade de auxiliar e colaborar com os executivos na tomada de decis\u00f5es, sem ter controlo direto das situa\u00e7\u00f5es que v\u00e3o ser mudadas\u00bb. Por outras palavras, o consultor orienta, mas n\u00e3o dirige a implementa\u00e7\u00e3o; aconselha, mas n\u00e3o manda nem opera dentro da estrutura do cliente. De facto, uma das vantagens classicamente atribu\u00eddas ao consultor \u00e9 a sua neutralidade e independ\u00eancia: n\u00e3o fazendo parte da hierarquia interna, pode opinar com objetividade. Mas essa independ\u00eancia implica tamb\u00e9m afastamento da trincheira operacional.<\/span><\/p>\n<p><span >A consequ\u00eancia pr\u00e1tica deste modelo \u00e9 que, uma vez entregue o relat\u00f3rio ou a estrat\u00e9gia concebida, a responsabilidade de a executar recai inteiramente sobre a organiza\u00e7\u00e3o cliente. Os consultores costumam retirar-se nesta fase, limitando-se talvez a um acompanhamento espor\u00e1dico ou a avaliar o progresso a partir de fora. Se a execu\u00e7\u00e3o fracassar, o consultor pode alegar (muitas vezes com raz\u00e3o) que as suas recomenda\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram implementadas corretamente ou com a convic\u00e7\u00e3o suficiente. Assim, a consultoria cl\u00e1ssica padece de uma esp\u00e9cie de desalinhamento de incentivos: o seu \u00eaxito mede-se pela qualidade da an\u00e1lise e pela satisfa\u00e7\u00e3o imediata do cliente com as recomenda\u00e7\u00f5es, mais do que pelos resultados concretos alcan\u00e7ados a longo prazo. H\u00e1 pouco \u00abskin in the game\u00bb, como diria Nassim Taleb, ou seja, pouca exposi\u00e7\u00e3o ao risco da execu\u00e7\u00e3o real.<\/span><\/p>\n<p><span >N\u00e3o surpreende, portanto, que proliferem as cr\u00edticas \u00e0 efic\u00e1cia real de certas consultorias. Peter Drucker costumava distinguir entre ter uma estrat\u00e9gia brilhante no papel e a capacidade de a traduzir em resultados tang\u00edveis, sublinhando que \u00aba estrat\u00e9gia \u00e9 uma commodity; a execu\u00e7\u00e3o, uma arte\u00bb. A consultoria tradicional dominou essa \u00abarte\u00bb na sua vertente concetual (a arte de idealizar), mas deixou muitas vezes por ocupar o terreno art\u00edstico da implementa\u00e7\u00e3o (a arte de fazer). Henry Mintzberg, por sua vez, criticou o planeamento estrat\u00e9gico excessivamente formalizado por se desligar da a\u00e7\u00e3o emergente, lembrando-nos que a estrat\u00e9gia efetiva muitas vezes \u00abemerge\u00bb da pr\u00e1tica e da adapta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, mais do que de planos r\u00edgidos. Em suma, o modelo convencional de consultoria tende a esgotar o seu contributo precisamente no ponto em que come\u00e7a a verdadeira prova: a concretiza\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia nas complexas condi\u00e7\u00f5es reais.<\/span><\/p>\n<p><strong>\u00abPraxis House\u00bb: uma nova categoria orientada para a a\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><span >Perante as limita\u00e7\u00f5es apontadas, o conceito de Praxis House apresenta-se como uma alternativa organizacional que transcende a consultoria cl\u00e1ssica. O que \u00e9 exatamente uma Praxis House? Podemos defini-la como uma entidade cuja miss\u00e3o principal \u00e9 orquestrar a execu\u00e7\u00e3o integral da estrat\u00e9gia dos seus clientes, assumindo um papel ativo na obten\u00e7\u00e3o de resultados concretos. Se a consultora tradicional \u00e9 o \u00abarquiteto\u00bb que desenha a planta, a Praxis House \u00e9 antes o \u00abmestre de obras\u00bb que garante que a constru\u00e7\u00e3o \u00e9 levada a cabo de acordo com a planta, adaptando-se ao terreno, resolvendo imprevistos e garantindo a solidez do edif\u00edcio.<\/span><\/p>\n<p><span >O termo praxis enfatiza precisamente essa voca\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00e3o efetiva. Ao contr\u00e1rio de um mero assessor externo, a Praxis House envolve-se na implementa\u00e7\u00e3o operacional da estrat\u00e9gia. Isto pode implicar que as suas equipas trabalhem lado a lado com as equipas do cliente, chegando mesmo a integrar-se temporariamente na estrutura organizacional para liderar projetos-chave, implementar sistemas, reconfigurar processos ou gerir a mudan\u00e7a cultural necess\u00e1ria. Longe de se limitar a recomendar o que fazer, a Praxis House colabora no como faz\u00ea-lo, trazendo n\u00e3o s\u00f3 o saber, mas tamb\u00e9m o fazer. Em ess\u00eancia, oferece uma combina\u00e7\u00e3o de vis\u00e3o estrat\u00e9gica e capacidade de execu\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span >Uma caracter\u00edstica distintiva desta categoria \u00e9 o alinhamento de incentivos e responsabilidades com o \u00eaxito da estrat\u00e9gia implementada. A Praxis House n\u00e3o vive apenas de honor\u00e1rios por consultoria prestada; muitas vezes associa a sua remunera\u00e7\u00e3o \u2014 ou a sua continuidade no projeto \u2014 \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de determinados marcos ou resultados mensur\u00e1veis. Deste modo, aproxima-se mais de um parceiro na execu\u00e7\u00e3o do que de um fornecedor de ideias. Esta \u00e9 uma diferen\u00e7a crucial: enquanto a consultora cl\u00e1ssica mant\u00e9m uma certa dist\u00e2ncia e objetividade, a Praxis House arrisca juntamente com a organiza\u00e7\u00e3o cliente, pondo em jogo a sua reputa\u00e7\u00e3o (e at\u00e9 benef\u00edcios econ\u00f3micos) na implementa\u00e7\u00e3o. Poder-se-ia dizer que introduz uma \u00e9tica da responsabilidade mais profunda na rela\u00e7\u00e3o com o cliente: assume a corresponsabilidade pelo destino das iniciativas estrat\u00e9gicas, em vez de entregar um relat\u00f3rio e ir-se embora.<\/span><\/p>\n<p><span >Numa perspetiva de governa\u00e7\u00e3o, a Praxis House representa uma inova\u00e7\u00e3o interessante. Nos quadros de bom governo societ\u00e1rio insiste-se na import\u00e2ncia da execu\u00e7\u00e3o diligente da estrat\u00e9gia e da presta\u00e7\u00e3o de contas sobre os resultados obtidos. No entanto, muitos conselhos de administra\u00e7\u00e3o e altos executivos reconhecem que, mesmo sabendo o que querem alcan\u00e7ar, nem sempre disp\u00f5em dos meios ou do tempo para garantir o como alcan\u00e7\u00e1-lo. \u00c9 aqui que uma Praxis House pode atuar como orquestrador externo, mas com um n\u00edvel de integra\u00e7\u00e3o e compromisso que a torna quase uma extens\u00e3o da pr\u00f3pria equipa executiva. N\u00e3o se trata de substituir a responsabilidade interna, mas de a refor\u00e7ar com uma capacidade especializada que a apoie end-to-end.<\/span><\/p>\n<p><strong>Integrar vis\u00e3o, implementa\u00e7\u00e3o operacional e resultados<\/strong><\/p>\n<p><span >Para compreender melhor o contributo de uma Praxis House, conv\u00e9m decompor os seus pap\u00e9is ao longo do ciclo estrat\u00e9gico. Em primeiro lugar, colabora na clarifica\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o e da estrat\u00e9gia, assegurando que os objetivos est\u00e3o bem definidos, mas tamb\u00e9m ancorados na realidade operacional. \u00c9 frequente que ajuste ou priorize iniciativas estrat\u00e9gicas em fun\u00e7\u00e3o da sua viabilidade pr\u00e1tica, trazendo um saud\u00e1vel realismo \u00e0 fase de planeamento. Esta abordagem pr\u00e1tica precoce evita planos grandiosos, mas imposs\u00edveis de executar, um dos pecados habituais de certos planeamentos estrat\u00e9gicos desligados da opera\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span >Em segundo lugar, na fase de implementa\u00e7\u00e3o operacional, a Praxis House assume um papel protagonista. Aqui atua quase como um maestro: coordena equipas, define cronogramas detalhados, atribui recursos, implementa metodologias de gest\u00e3o de projetos, cl\u00e1ssicas ou \u00e1geis, consoante o caso, e monitoriza o progresso. Gra\u00e7as \u00e0 sua experi\u00eancia executiva em m\u00faltiplas organiza\u00e7\u00f5es, traz know-how sobre a forma de superar estrangulamentos habituais na execu\u00e7\u00e3o (resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a, problemas de comunica\u00e7\u00e3o, falta de compet\u00eancias, etc.). Um exemplo pr\u00e1tico poderia ser o de uma empresa que tem de levar o seu modelo de neg\u00f3cio para o ambiente digital: a consultora tradicional talvez tenha elaborado o plano digital; a Praxis House, pelo contr\u00e1rio, dirigiria a constru\u00e7\u00e3o das plataformas tecnol\u00f3gicas, a reengenharia de processos e a forma\u00e7\u00e3o do pessoal, trabalhando dia ap\u00f3s dia at\u00e9 que a transforma\u00e7\u00e3o se materialize.<\/span><\/p>\n<p><span >Por fim, a Praxis House n\u00e3o se retira ao entregar um relat\u00f3rio; permanece at\u00e9 que se constatem os resultados. Participa na implementa\u00e7\u00e3o de m\u00e9tricas e indicadores (KPI) que permitam saber se a estrat\u00e9gia est\u00e1 a dar frutos e ajuda a corrigir o rumo se os indicadores o sugerirem. Em certo sentido, assume uma fun\u00e7\u00e3o de retroalimenta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica: traduz os dados de resultados em aprendizagens para ajustar, pelo caminho, tanto a estrat\u00e9gia como a t\u00e1tica. Esta din\u00e2mica cont\u00ednua de execu\u00e7\u00e3o-aprendizagem realimenta a vis\u00e3o estrat\u00e9gica, fechando o ciclo da praxis. Aqui vemos outra dimens\u00e3o da palavra praxis: uma pr\u00e1tica refletida, que n\u00e3o \u00e9 mera \u00aba\u00e7\u00e3o cega\u00bb, mas sim a\u00e7\u00e3o guiada pela avalia\u00e7\u00e3o constante da realidade (uma esp\u00e9cie de estrat\u00e9gia emergente consciente).<\/span><\/p>\n<p><span >Um aspeto importante \u00e9 a gest\u00e3o da accountability (responsabilidade pelos resultados). A Praxis House, ao envolver-se na execu\u00e7\u00e3o, ajuda a instaurar mecanismos claros de presta\u00e7\u00e3o de contas. Por exemplo, define juntamente com a dire\u00e7\u00e3o quem ser\u00e3o os respons\u00e1veis por cada iniciativa, que resultados espec\u00edficos se esperam e em que prazos, e estabelece rituais de acompanhamento em que esses respons\u00e1veis devem reportar progressos e obst\u00e1culos. Esta cultura de accountability atenua o j\u00e1 referido problema da \u00abresponsabilidade dilu\u00edda\u00bb. Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria Praxis House submete-se a esse escrut\u00ednio: se determinados objetivos n\u00e3o forem cumpridos, ter\u00e1 de explicar porqu\u00ea, e a sua credibilidade (e o seu contrato) estar\u00e3o em jogo. Em suma, cria-se um ecossistema de compromisso partilhado.<\/span><\/p>\n<p><strong>Responsabilidade e filosofia da a\u00e7\u00e3o na \u00abCasa da Praxis\u00bb<\/strong><\/p>\n<p><span >O nome Praxis House n\u00e3o indica apenas uma casa ou entidade dedicada \u00e0 pr\u00e1tica; evoca tamb\u00e9m uma certa filosofia da a\u00e7\u00e3o. Subjacente a esta filosofia est\u00e1 a ideia de que fazer n\u00e3o \u00e9 algo secund\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o a pensar, mas que ambos formam um cont\u00ednuo indissoci\u00e1vel. A fil\u00f3sofa Hannah Arendt, na sua an\u00e1lise da <\/span><i><span >vita activa<\/span><\/i><span >, situou a \u00aba\u00e7\u00e3o\u00bb como a mais elevada das capacidades humanas, acima do mero trabalho ou da fabrica\u00e7\u00e3o. Para Arendt, a a\u00e7\u00e3o \u00e9 a capacidade de iniciar algo novo, de intervir no mundo para transformar a realidade atrav\u00e9s da iniciativa. \u00c9 o poder de criar um come\u00e7o. Esta ideia ressoa profundamente com a miss\u00e3o de uma Praxis House, que encarna essa prioridade da transforma\u00e7\u00e3o face \u00e0 mera interpreta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se contenta em analisar a situa\u00e7\u00e3o de uma empresa e elaborar relat\u00f3rios; assume o mandato de iniciar uma mudan\u00e7a e alterar efetivamente essa realidade empresarial juntamente com o cliente.<\/span><\/p>\n<p><span >Naturalmente, isto levanta desafios e poss\u00edveis obje\u00e7\u00f5es. Alguns poder\u00e3o argumentar que uma entidade t\u00e3o envolvida na execu\u00e7\u00e3o pode perder a objetividade que caracteriza o bom consultor. Perda de objetividade? Pelo contr\u00e1rio, ganhamos uma <em>objetividade assente na realidade operacional<\/em>. A nossa an\u00e1lise n\u00e3o surge apenas de dados num relat\u00f3rio, mas da experi\u00eancia direta de implementar no terreno do cliente. \u00c9 uma perspetiva mais rica e fundamentada. E como equilibrar a imparcialidade anal\u00edtica com o compromisso participativo? A resposta \u00e9 que a Praxis House deve cultivar uma esp\u00e9cie de \u00abbifocalidade\u00bb: manter uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica ampla (sem ficar presa \u00e0 opera\u00e7\u00e3o ao ponto de perder perspetiva), ao mesmo tempo que mergulha o suficiente na opera\u00e7\u00e3o para nela influir. Aqui, a experi\u00eancia e o talento dos seus profissionais desempenham um papel cr\u00edtico. S\u00e3o necess\u00e1rios perfis h\u00edbridos: pensadores-executores, estrategas que sejam tamb\u00e9m implementadores. Este tipo de profissional integral rompe o molde tradicional do consultor te\u00f3rico, por um lado, e do gestor executor, por outro, combinando ambas as facetas.<\/span><\/p>\n<p><span >Do mesmo modo, uma Praxis House deve estar consciente dos limites da sua interven\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de criar depend\u00eancia nem de suplantar as capacidades internas da organiza\u00e7\u00e3o, mas de as potenciar. Idealmente, ap\u00f3s a passagem de uma Praxis House, a empresa cliente n\u00e3o s\u00f3 ter\u00e1 conseguido executar a sua estrat\u00e9gia imediata, como ter\u00e1 aprendido a executar melhor no futuro, fortalecendo a sua pr\u00f3pria cultura de praxis. Nesse sentido, a Praxis House atua tamb\u00e9m como mentora organizacional, deixando um legado sob a forma de metodologias, compet\u00eancias e h\u00e1bitos de execu\u00e7\u00e3o instaurados na empresa.<\/span><\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><span >Num ambiente empresarial marcado pela incerteza e pela necessidade de adapta\u00e7\u00e3o constante, as organiza\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o se podem dar ao luxo de tra\u00e7ar estrat\u00e9gias ambiciosas que depois naufragam na ina\u00e7\u00e3o. Imp\u00f5e-se uma vis\u00e3o mais integrada da gest\u00e3o, em que a fronteira entre planear e executar se esbate em favor de um ciclo cont\u00ednuo de aprendizagem na a\u00e7\u00e3o. A proposta de uma Praxis House como nova categoria organizacional responde a esta vis\u00e3o, dando uma resposta concreta ao hist\u00f3rico div\u00f3rcio entre \u00abpensar\u00bb e \u00abfazer\u00bb na empresa.<\/span><\/p>\n<p><span >Argument\u00e1mos que uma Praxis House se distingue da consultoria cl\u00e1ssica porque assume um compromisso ativo com os resultados, unindo a vis\u00e3o ao fazer operacional e tornando-se correspons\u00e1vel pelo \u00eaxito ou fracasso da estrat\u00e9gia implementada. Esta abordagem hol\u00edstica integra a formula\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica com a gest\u00e3o da mudan\u00e7a, a execu\u00e7\u00e3o de projetos e a obten\u00e7\u00e3o de objetivos mensur\u00e1veis, cobrindo assim o \u00faltimo tro\u00e7o cr\u00edtico em que tantas estrat\u00e9gias fracassam. Ao dotar a estrat\u00e9gia de praxis \u2014 ou seja, ao encarnar a teoria na a\u00e7\u00e3o \u2014, honra-se plenamente a etimologia do termo: a estrat\u00e9gia deixa de ser uma ideia plat\u00f3nica e converte-se em realidade tang\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><span >Em termos filos\u00f3ficos e de management, falamos de recuperar a unidade entre o logos (discurso, ideia) e a praxis (a\u00e7\u00e3o, realiza\u00e7\u00e3o). Grandes pensadores da gest\u00e3o lembraram-nos que a estrat\u00e9gia s\u00f3 ganha significado na sua execu\u00e7\u00e3o. Como bem sublinha Antonio Nieto-Rodr\u00edguez, especialista contempor\u00e2neo em execu\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, o verdadeiro impacto de qualquer estrat\u00e9gia manifesta-se unicamente quando esta \u00e9 posta em pr\u00e1tica com \u00eaxito. Uma Praxis House opera precisamente nesse impacto, nessa interse\u00e7\u00e3o cr\u00edtica entre o que se pretende alcan\u00e7ar e o que efetivamente se alcan\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span >Em suma, elevar o conceito de Praxis House \u00e9 defender organiza\u00e7\u00f5es \u2014 e parceiros externos \u2014 que n\u00e3o s\u00f3 pensam, mas tamb\u00e9m fazem, que convertem a vis\u00e3o em resultados e que assumem a responsabilidade completa do percurso. Na medida em que as empresas adotem esta abordagem, seja construindo capacidades internas de praxis, seja aliando-se a entidades que personifiquem esta filosofia, veremos fechar-se o fosso persistentemente observado entre a estrat\u00e9gia formulada e a realidade alcan\u00e7ada. Porque, parafraseando uma vez mais Edison, s\u00f3 quando a vis\u00e3o se funde com a execu\u00e7\u00e3o deixamos para tr\u00e1s as alucina\u00e7\u00f5es e materializamos o futuro que imaginamos.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Antonio Tejeda Encinas, SJD \/ Dr. iuris Presidente do Comit\u00e9 Euroamericano de Derecho Digital. CEO da Meta Channel Corporation. Autor do conceito Praxis House. 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